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Sonhou que comia um monte de queijo. Não sabia de que tipo, ou melhor, não sabia o nome. O tipo era aquele cheio de furos, como os de desenho animado. Ficou comendo queijo, mastigando com vagar, enquanto as pessoas à sua volta lhe faziam perguntas, que ele respondia com a boca cheia de queijo.
Acordou ofegante, ainda com gosto de queijo na boca e uma pergunta a lhe atormentar na mente: “seria granizo?”, não parava de pensar. Era um sujeito um bocado supersticioso, mas infelizmente tinha doado os seus livros sobre sonhos (“Oniromância para Oligofrênicos” e “Ganhando dinheiro com os sonhos alheios”) para uma velha cigana cheia de perebas, que por causa da aparência já não conseguia atrair e devorar nenhuma criancinha e por isso precisava de um novo meio de ganhar a vida. Então já que ele não tinha mais os livros, o negócio era improvisar. Abriu a geladeira disposto a comer todo o queijo que encontrasse, para não dar nenhuma chance ao azar. Infelizmente só tinha queijo Minas em casa, mas ainda assim se pôs a comer com vigor. Mas quando se preparou para comer o ultimo pedaço de queijo, sentiu um puxão repentino, e pimba! Tinha acordado de novo, só que agora parecia pra valer. Levantou com calma, tentando entender sua situação, decidido a não se meter com queijo desta vez, o que foi uma decisão acertada, uma vez que não tinha nenhum queijo em casa. Ficou se perguntando o que iria acontecer, pois cada vez que tinha algum sonho estranho, algo ainda mais estranho acabava acontecendo. Não que ele pensasse que tivesse algum dom profético ou algo assim, achava apenas que coisas esquisitas aconteciam o tempo inteiro, e acostumado como estava, elas passavam meio despercebidas, até que tivesse um sonho estranho, ou algo parecido que o deixasse mais atento, para que se lhes desse a devida importância, como na vez em que sonhou ser um gordão bizarro, que falava com rimas e gostava de comer velas acessas. Nesse dia quando acordou, percebeu que seu cachorro lhe trazia um bicho morto na boca, que um exame mais atento revelou ser uma lontra. Ficou se perguntando como o cachorro, bobo como era, e que não conseguia pegar nem mesmo os biscoitos que lhe jogavam, conseguiu pegar uma lontra, que nos documentários sempre parecia um bicho tão esperto. “Provavelmente usou métodos sujos”, pensou. Mas de onde veio essa lontra? Até onde sabia, não tinha lontras naquela cidade, quiçá em todo o estado. Devia ter escapado de algum Zôo ou criador particular. Fosse como fosse, poderia pensar melhor a respeito depois de tomar um banho.
Depois do banho, enquanto se secava, ouviu um ganido e imaginou que o cachorro estava encontrando dificuldades em lidar com a lontra morta. Mas ao ouvir outro ganido, mais alto e choroso, correu para averiguar, e ficou chocado com a cena a sua frente: Mais de trinta lontras cercavam o seu cachorro, que ainda estava com a sua vitima na boca, e girava para todos os lados, sem saber o que fazer. As lontras por sua vez sabiam exatamente o que queriam: vingança e sangue, olho por olho, e já começavam a tomar atitudes para conseguir.
Não havia nada mais a fazer pelo cachorro, que foi mutilado e morto. As lontras ainda tinham sede de sangue, e não contentes em acabar só com o cachorro, partiram para cima do dono, que com uma presença de espírito impressionante, começou a realizar uma dança indígena, com passos estranhos, mas fáceis de imitar. Tinha aprendido a dança com um índio Navarro covarde, que sempre ao ser encurralado por alguma tribo inimiga, dançava com destreza, fazendo todos rirem, e perderem a vontade de arrancar o seu escalpo, que não era lá essas coisas. As lontras ao verem aqueles movimentos, estacaram por um instante. E depois de uma certa hesitação, começaram a dançar com animação, dispostas a esquecer aquele infeliz acidente.
Após algum tempo, as lontras resolveram se retirar, não sem antes restituir a vida, ao pobre cachorro, que só lamentou não ter podido dançar com todos. Casa silenciosa, apenas ele, o cão e a lontra morta. Como dançar dava fome, preparou a lontra de almoço. Tinha gosto de galinha.
E hoje, o que aconteceria? Não teria como saber, então só podia esperar e torcer para seja lá o que acontecesse, que não fosse tão ruim. Ao que lhe pareceu, ao sair de casa para trabalhar, tirando um negócio branco que apareceu no seu quintal, nada estranho estava acontecendo com ele. Ao voltar pra casa, depois de um dia bem chato, já que nada de estranho acontecera, resolveu investigar a coisa branca que tinha visto de manhã.
De longe, parecia uma caixa branco-acinzentada deixada no seu gramado, mas olhando de perto, era firme e compacta, bem fixada ao chão, e o mais incrível, era gelada. Tinha uma entrada pequena, difícil de reconhecer, com um mecanismo inexplicável fazendo às vezes de porta. Entrou e constatou que era bem quente e espaçoso lá dentro, com uns “banquinhos” esquisitos, mas bem confortável. Voltou para sua casa, satisfeito com a sua descoberta, e curioso para descobrir o que era. Começou a procurar uma resposta nos livros de escola, que fazia tempo não abria, até que numa antiga enciclopédia a descobriu. Aquela coisa no seu gramado era uma casa de esquimó, um Iglu. A pergunta agora era: O que uma casa de esquimó fazia no seu gramado? Seria algum novo plano de urbanização do governo, com matéria prima mais barata? Ou seria algum tipo de trote bem elaborado? De qualquer maneira, se estava no seu quintal, era de sua propriedade, e tinha gostado da idéia de ter um Iglu só para ele.
O tempo foi passando e cada vez mais ele se acostumava com a idéia de morar só no Iglu. Aquilo era legal demais, ficar enrolado em pele de foca, sem ter de ver televisão, com o pingüim tomando conta do quintal. Se perguntava o tempo todo, como pode viver sem isso até aquele momento. Em pouco tempo, todos os seus conhecidos ficaram sabendo a respeito do Iglu. Tornou-se popular sem querer, e não passava uma noite sem que ele levasse uma garota diferente para conhecer sua coleção de peles de foca. Isso era legal, mas em pouco tempo começou a lhe cansar. Ele queria algo mais profundo, mais definitivo em matéria de Iglu. Começou a se sentir deslocado, no meio de seus amigos e amigas “não esquimós”. Quando olhou dentro de si já sabia o que fazer. Tinha umas economias, que usou para fazer o carreto do Iglu, para zona portuária da cidade. Vendeu a casa que a sua avó lhe havia dado de herança, para um velho pederasta que planejava a transformar em uma casa feita de doces, para atrair e “devorar” criancinhas. Usou o dinheiro para pagar o transporte do iglu e o seu para o Pólo Norte, e com o que sobrou comprou muito sebo de bode, excelente para lamparinas.
Teve uma vida bem feliz por lá, onde para sobreviver, dava palestras a microempresários locais sobre as vantagens comerciais da fabricação e manutenção de fogueiras. Arranjou uma esposa que era considerada a mulher mais bonita do Pólo Norte (que ainda assim era muito feia), em suma, foi muito feliz, mas sempre que anoitecia, e ele acendia uma lamparina para espantar as morsas e pingüins selvagens, ele sentia uma falta terrível de sua antiga casa. Mas os ursos já estavam à sua porta, seus filhos já estavam crescidos, o sebo de bode estava acabando, e ele não tinha tempo pra pensar nisso agora.
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